O País adiado continua à espera. Suspirar por milagres não serve, pois os problemas resolvem-se cá na terra. Fiquei estarrecido com uma notícia que me caiu nos olhos ontem, pela manhã. Vinte e cinco carros da PSP, da esquadra da Bela Vista , no Porto, estão parados há um mês. O motivo? Falta de pneus! A situação, denunciada pelo Sindicato Independente de Agentes da Polícia, poderia ser considerada apenas caricata. A verdade é que não é. Atesta o estado a que o País chegou, a penúria que se abateu sobre serviços que são essenciais à segurança e bem estar dos cidadãos e, mais do que isso, revela-se exemplar quanto à forma como se faz a gestão de prioridades no que respeita à aplicação dos dinheiros públicos. 1. Foi com o início da semana que me chegou também outra informação: eu, que julgava não dever nada a ninguém, fiquei a saber que tenho cerca de 18.000 euros para pagar ao estrangeiro, como parte da dívida portuguesa ao exterior. É quanto, afinal, cabe a cada cidadão como parte do endividamento que fomos acumulando, graças a gestões governamentais altamente eficientes ao longo dos anos, e que já atinge quase 183 mil milhões de euros. Trata-se de um valor descomunal, desajustado da realidade que o País pode sustentar e insuportável para a sua capacidade produtiva. O mais grave de tudo, no entanto, é a sensação (mesmo certeza) de que essa monumental montanha cresceu , no essencial, para alimentar vícios, não tendo sido devidamente utilizada para criar riqueza.
José Sócrates é, hoje em dia, o ponto de confluência da controvérsia maior e das dúvidas que minam a sociedade. Aí está finalmente o Programa de Estabilidade e Crescimento. Após meses de espera, o Governo deu-o a conhecer aos partidos, por sinal, na semana em que o Orçamento de Estado está em discussão no Parlamento. As referências centrais acabaram por ser as esperadas: forte contenção e apertadas medidas de austeridade, sobretudo, nas áreas directamente relacionadas com o Estado. Eram inevitáveis as opções, não se percebendo apenas as razões que levaram o Executivo a atrasar a apresentação do documento, que, mesmo assim, deixa suspeitas de insuficiência. À semelhança do que, tantas vezes, se faz em Portugal, os sucessivos adiamentos do PEC não são justificáveis, uma vez que deveria ser este documento, contendo as linhas de ataque à crise nos próximos anos, a surgir antes da proposta do Orçamento. Enfim, originalidades portuguesas... 1. As premissas em que assenta o Programa, bem como as directivas de acção que estabelece, não apanham o país desprevenido. Nem mesmo a objectiva acentuação do fardo fiscal e as restrições em matéria de apoios sociais. A aplicação de políticas restritivas com violento reflexo nos mecanismos da economia era aguardada em ambiente de inconformismo e contestação, como a greve da função pública demonstrou. O conhecimento concreto daquilo que o Governo pretende vai avolumar a insatisfação e irá por à prova a capacidade de Sócrates e da sua equipa de ministros para suportarem a pressão que sobre eles se abaterá. Tarefa difícil e altamente desgastante, para a qual será necessário contar com o apoio ou, pelo menos, cumplicidade de alguns dos partidos da oposição. Bloco de Esquerda e Partido Comunista colocar-se-ão, como se sabe, de fora, deixando o Governo nas mãos de PSD e CDS.
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Tudo parece conjugar-se para voltarmos a ser um País exportador, mas de... pessoas. Perdendo talento e conhecimento. Desde o início do ano, mais de setecentas empresas faliram. O número é impressionante, mas ganha ainda maior expressão quando se conclui que superou mesmo o do ano passado, em período idêntico. A fragilidade da nossa economia está a ser posta a nú, a cada dia que passa, não havendo forma de disfarçar as vulnerabilidades de que enferma. Os próximos tempos não irão trazer diferenças substanciais ao quadro actual. A necessidade de apertar o cinto, dada a inevitabilidade da adopção de medidas que permitam reduzir o enorme défice português, vai agravar ainda mais a situação. Nesse aspecto, a expectativa à volta do Programa de Estabilidade e Crescimento avoluma-se, uma vez que que funcionará como uma espécie de quadro de referência para os próximos anos. Congelamento de salários na função pública, corte de benefícios fiscais e de outros incentivos, além de dispositivos de contenção nas lógicas de gestão e endividamento das empresas ligadas ao Estado, constituirão o prato forte das políticas económicas dos meses que temos pela frente. 2010 não será o pior ano. O de 2011 adivinha-se bem mais dramático. O discurso do realismo vai ter de substituir o da propaganda, pondo fim a longo período de demagogia. Portugal é um local onde viver será cada vez mais difícil. Tempos amargos vão testar as capacidades de quem é poder e de quem está na oposição e deixar perceber se há projectos de relançamento e de recuperação efectivos que extravasem o mero combate circunstancial a esta crise. Até agora, aquilo que se tem sabido, por parte do Governo, não indicia grandes novidades na metodologia de ataque aos problemas. Trata-se de um conjunto de respostas clássicas, consagradas nos compêndios e manuais, assentes em mecanismos que provocam contracção e que adiam a recuperação para altura mais favorável, à espera que a economia mundial, melhorando, nos ofereça boleia.
A contestação social estará na rua, com a intensidade que se conhece e a capacidade mobilizadora de que as centrais sindicais já deram mostras. As manifestações já anunciadas e as greves que se perfilam deixam transparecer a agitação que se avizinha, perante o panorama geral de contenção que as nuvens pairando no horizonte adensam.
A PT fica manchada pelo que se passou e associada para sempre a acções que não dignificam ninguém. Fernando Soares Carneiro demitiu-se ontem do seu lugar no Conselho de Administração da Portugal Telecom. Foi o segundo, no espaço de poucos dias. A sua saída não surpreende, dado o facto de o seu nome ter sido um dos referenciados nas escutas relacionadas com o caso "Face Oculta"e, concretamente, com alegadas manobras visando o controlo de orgãos de Comunicação Social e o afastamento de profissionais incómodos. À PT pouco mais restava a não ser ver-se livre dessas duas pessoas, perante a dimensão de tudo aquilo que as escutas guardavam e que, tal como a água e o azeite, não resistiu à força da verdade. A Telefónica portuguesa fica manchada pelo que se passou e associada para sempre a acções que não dignificam ninguém e não podem deixar de preocupar os seus accionistas privados. Pelo menos esses. Não é admissível que uma empresa com o peso que a Portugal Telecom tem em Portugal e no estrangeiro permita que a envolvam, ou arrastem, se se quiser ser simpático, para situações deste tipo, ou sequer seja colaborante em operações visando a compra de estações de Televisão, em ambientes cujos contornos políticos se mostram tão evidentes que até um cego revelaria dificuldade em não ver.
Estou à vontade para assinar estas afirmações até porque o meu nome tem sido repetidamente mencionado, no âmbito do negócio falhado da venda de parte do capital da TVI à PT. Identifico, com grande facilidade, a mentira e a falta de vergonha de quem engendrou um plano tão meticuloso para obter os seus intentos, pensando em tudo que eram vantagens políticas e esquecendo-se dos interesses das empresas envolvidas, que, além de accionistas, têm funcionários que se esforçam todos os dias e se preocupam com a manutenção dos seus postos de trabalho, em particular, numa época em que a destruição de emprego já faz parte do quotidiano. Com aqueles que, abusivamente, usam e usaram o meu nome, o qual constitui o meu principal património e o legado essencial que hei-de deixar aos meus filhos, saberei lidar de modo adequado e no tempo certo. O problema é que a situação com a qual, a propósito destas questões,o país se vê confrontado, entre boquiaberto e desiludido, tem raízes muito fundas e, sobretudo, assenta num profundo desprezo pela democracia e pelos seus valores.
O director de um conhecido colégio lisboeta, ao comentar comigo, há dias, os impactos da crise, lembrou-me que, sendo a época carnavalesca um período em que se realizam as tradicionais viagens de final de curso, também constitui uma oportunidade para testar o real estado das famílias. Assim, confidenciou-me que, este ano, menos 40% dos alunos daquele estabelecimento de ensino particular se inscreveram, em comparação com 2009, nas viagens programadas. Trata-se de um sinal evidente das dificuldades que a classe média hoje enfrenta, na senda da degradação das suas condições de vida que vem ocorrendo há anos e que a obriga a restrições evidentes, seja por necessidade, seja por precaução. Poucos serão hoje, em Portugal, aqueles que não convivem com casos de desemprego ou que não conhecem situações de busca dramática por um posto de trabalho.
osé Eduardo Moniz apela à intervenção de Cavaco Silva e da ERC no caso das escutas da Face Oculta. Já o Conselheiro de Estado António Capucho apoia o inquérito parlamentar.
O País anda cheio de ‘stress'. Não é para menos. A juntar à gravíssima crise económica, as revelações sobre a forma como José Sócrates se posiciona perante a Comunicação Social e os jogos de bastidores tendentes a condicionar a livre informação em Portugal justificam só por si que se incremente o consumo de ansiolíticos.
Este é um momento particularmente difícil da nossa vida colectiva. Depois de anos de venda de ilusões, assente na lógica da demagogia e do eleitoralismo fácil, os portugueses são confrontados com a dureza de uma realidade que nenhum mestre da escrita de ficção consegue disfarçar.
1. Os acontecimentos dos últimos dias não dão margem a que haja condescendências. O que veio a lume, no pouco que ainda se soube sobre conteúdos de escutas efectuadas no âmbito do caso "Face Oculta", demonstra o enorme desrespeito por princípios elementares da sã convivência democrática. Os cidadãos ficaram a conhecer, surpreendidos e incrédulos, manobras inqualificáveis visando o controlo da actividade de empresas jornalísticas em Portugal, nomeadamente, no que aos seus conteúdos informativos diz respeito. Percebeu-se que valia tudo, desde o afastamento de profissionais incómodos até à suspensão de programas televisivos não alinhados, passando por intervenções no capital de sociedades de comunicação social, utilizando-se, para tal, empresas em que o Estado tem influência directa, ou porque detém acções das mesmas ou porque, perante ele, se revelam dependentes, por qualquer razão.
2. Os aspectos divulgados permitem concluir que tudo terá sido feito, no mínimo, com a complacência do primeiro-ministro. O processo relacionado com os acontecimentos na TVI lançam a vergonha sobre o Governo e sobre o seu líder, confirmando, no fundo, aquilo que já se sabia: o seu apetite devorador e destruidor relativamente a tudo e todos que não abdicam da liberdade de pensar e exprimir-se de acordo com os ditames da sua consciência, sem amarras nem obediências à suprema vontade do chefe. Ficou, uma vez mais, patente a promiscuidade entre detentores do poder político e alguma gente que, como se vê, impropriamente, se diz empresária de "media".
A realidade incumbiu-se de trazer José Sócrates e Teixeira dos Santos para o chão que os comuns mortais pisam. É penoso o sentimento de frustração que me acompanha, ao escrever estas linhas. A verdade, porém, é que o País não liberta sinais que me façam acreditar numa alteração do quadro em que se encontra, no colete de forças que o aperta sem qualquer vislumbre de piedade. Gostaria de citar Churchill, quando afirmou "sou um optimista. Não me parece adiantar muito ser outra coisa qualquer". Sábias palavras de um grande homem, mas insuficientes para me inocularem um vírus que altere a maneira de percepcionar a realidade, perante o panorama que se nos depara, tanto no curto como no médio prazo. Pelo menos. Vem-me à memória uma conversa recente com um dos sócios de uma pastelaria da Avenida de Roma, em Lisboa. Trata-se uma zona típica de classe média, média alta, onde os efeitos da situação económica se mostram indisfarçáveis. Apesar de não ter o valor indicativo das estatísticas, as palavras do meu interlocutor libertam sinais evidentes da crise que se abateu sobre muitos dos que por ali vivem. Ou viviam. Nunca houve tanta gente a vender apartamentos nesta zona, assinala ele. Os anúncios agarrados às janelas parecem dar-lhe razão. Fala, também, do impacto da crise na sua própria actividade, esclarecendo que o volume de facturação diminuiu, porque o consumidor alterou alguns dos seus hábitos alimentares para poupar dinheiro. Até mesmo na frequência com que se aventura no consumo da tradicional "bica". Esclarece ainda que, com dezasseis funcionários, há que fazer uma gestão muito espartana, tanto mais que nem o Estado nem os bancos facilitam a vida a quem tem um negócio. A frase de Churchill é inspiradora, mas a voz do povo é bem real. Vale a pena dar-lhe ouvidos, na semana em que o Governo assinala os seus primeiros cem dias . 1. Confesso que não sei por que se faz tanto alarido com o registo desse facto, para mais na mesma semana em que arrancam as comemorações do centenário da República. Parece até coisa de mau gosto, dado que o clima que respiramos, recheado de problemas, crise económica, frustrações com políticos, desemprego, etc., tem muitas parecenças com os tempos da efeméride que juntou, no Porto, no fim de semana, Cavaco e Sócrates e pôs até ambos, certamente por coincidência, a citar Guerra Junqueiro. A hipocrisia política elevada ao cubo... 2. Festividades que ocorrem no meio de várias acções de contestação social. Enfermeiros e donos de carrosséis manifestam-se, ao mesmo tempo que agentes policiais se mostram insatisfeitos e que da área sindical se adensam os sinais de que o descontentamento com o Governo e as suas políticas vai ter tradução na rua. São indicadores relevantes quanto àquilo que o país enfrentará nos meses que se avizinham, perante o apertar de cinto finalmente admitido pelo primeiro-ministro e pelo seu ministro das Finanças como inevitáveis, depois de terem andado irresponsavelmente a esconder os factos, como se viu, por exemplo, com o défice. 3. A realidade incumbiu-se de trazer José Sócrates e Teixeira dos Santos para o chão que os comuns mortais habitualmente pisam. Agora, já se considera que só serão executadas as mega-obras já adjudicadas, porque o dinheiro não chega para tudo. Há projectos de auto-estradas que vão ficar pelo caminho e troços do TGV que aguardarão melhores dias. Um e outro já perceberam que deixaram de ter cobertura para a demagogia eleitoralista que tanto animou os actos governamentais no primeiro mandato de Sócrates. Até o bastonário dos engenheiros, o insuspeito socialista Murteira Nabo já disse que é tempo de se fazer apenas aquilo que é útil e aplicar o dinheiro de forma racional, dando como exemplo, entre outros, a construção de hospitais.
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